Não nos soubemos ter

Por vezes, é necessário deixar as coisas voarem. Por mais que custe, é preciso entender que nem tudo foi feito para ficar. Pode doer (ai se pode!...), mas não se compara à dor da infelicidade e do vazio no peito. Por vezes, ir embora é a coisa mais difícil do mundo. Mas valerá a pena ficar quando, no mais genuíno momento de felicidade, uma pessoa não se sente totalmente preenchida? Ter maturidade não significa ter que lutar na batalha, mas sim ter capacidade para saber quando já chega e quando se deve ir embora ou deixar ir.
É um erro pensar que só gostar chega. No início, claro que chega. Basta um certo beijo, abraço ou olhar para ser criado um fascínio tão grande que ficamos cegos de paixão. No início, tudo na outra pessoa é novo, é linda a descoberta diária do lado mais bonito da outra pessoa. No início, faz-se o impossível para estar com a pessoa, só para sentir aquela adrenalina constante. É depois desse início deslumbrante que vem a inquietação. Encontram-se as diferenças (por vezes incontornáveis), aquilo que menos se gosta na pessoa até então perfeita. Com o tempo, a paciência começa a não ser a mesma e as expectativas vão-se desmoronando. Aqueles que permanecem é porque escolhem aceitar todas essas diferenças e, mesmo assim, escolhem não desistir dessa pessoa que acham encantadora. Até os esforços mútuos serem diferentes, os objetivos serem opostos e as discussões constantes. É aí que gostar, só, não chega. Por mais que se goste da pessoa, nós próprios vamo-nos tornando num ser diferente, moldado àquilo que vivemos e sentimos. E, tantas vezes e involuntariamente, o eu que a outra pessoa conheceu deixa de existir. Porque gostar, só, não basta. Não chega para duas pessoas resultarem com uma só, para lutarem juntas. Há pessoas que se diminuem em vez de se somarem. Há pessoas que não se sabem ter.
Falei-te tanta vez do que me faltava. Disse-te tanta vez o que tinha que mudar. Fui cobarde em deixar ir durante tanto tempo e tu foste cobarde em repetir tudo. A pessoa por quem te apaixonaste já não existe. Já não tenho a mesma paciência nem sou tolerante como era. Se eu realmente fosse tua, farias qualquer coisa por mim. Mas mantiveste-te na tua zona de conforto, na tua comodidade e sem sair do que é mais conveniente para ti. Avisei-te uma, duas, três vezes. Pensaste que eu era um pássaro sem asas e nunca sairia do teu lado pela segurança que me davas. Nunca fui mulher de ficar por ficar. Se fico, tem de ser por alguém que me desafie todos os dias, que extraia o melhor de mim e dê valor a tudo o que faço. E tu nunca pensaste que eu não ficasse. O teu maior erro foi esse. O teu maior erro foi tomares-me como garantida.
Tenho a certeza que um dia vais perceber exactamente o que te quis dizer. Mas, hoje, fui.