Quando deixa de existir, deixa de existir para sempre.


Dava tudo para ter sido diferente, sabes? Não imaginas o esforço que faço para não voltar a molhar a folha com as minhas lágrimas. Se isso acontecesse ia borrar tudo. Outra vez. Mas o que é uma folha de papel com tinta azul borrada, quando tenho mil e um problemas? Hoje acordei a pensar que o meu maior problema seria como me levantar da cama e a seguir o que ia vestir. Agora, sento-me na escrivaninha a chorar, a pensar como tu isto foi acontecendo por baixo do meu nariz e nem assim consegui ver sozinha. Quando tens pessoas que pensas serem as melhores do mundo, por quem davas a vida e esperas que a dêem por ti, e acabas desiludido na mesma como se fosse qualquer outra pessoa, é uma merda. É mesmo! Se calhar se eu estivesse mais perto, não tão longe… Custa-me pensar que isso muda tudo, quando eu punha as minhas mãos no fogo em como não mudava nada. Da maneira como deixei, tinha tudo para correr bem. Mas às vezes a falta de vontade é fatal. Aliás, quase sempre. Entristece-me ver como tudo aconteceu. Como me viraram as costas sem dó nem piedade. Eles não sabem que sei. Eles não querem que eu saiba. Eles desejam que eu não saiba. Mas eu sei. Não preferia não saber. Sabes, o que mais me custa é ver o quão bem todos estão e mesmo assim deixaram tudo passar. É uma merda esperares receber o mesmo que dás. Porque isso não acontece. Raramente acontece. E, quando acontece, ou te proteges à espera que a bomba caia a qualquer momento, ou te agarras com toda a força do mundo à espera que seja verdadeiro. O meu conselho é que te abrigues bem. Essas pessoas são uma num milhão. É tão bom quando é real, verdadeiro, genuíno… Por ser tão bom é que tem que ser tão raro. Nem todos o têm, nem todos o conseguem, até porque nem todos o merecem. Eu tenho isso, felizmente. Agradeço todos os dias e rezo para que eu faça por merecer. Felizmente, tenho um abraço à minhas espera em casa para me confortar em dias de merda como este. Não me lembro de ter escrito um texto com palavras feias, mas estou tão revoltada que me estou a lixar. Dava tudo para mudar o que sinto, sabes? Não gosto destas coisas, da desilusão e essas merdas. Lá voltaram as lágrimas… Se borrar agora, já não vou recomeçar. Quem diria que iriam acabar por ser tudo aquilo que repudiaram há uns meses? Que ainda repudiam? Ou ainda pior, porque essa nunca me tocou. É uma merda saber que trataram mal o único pedaço de mim que vos deixei. Vão-se lá divertir a escaramuçar e meter veneno, a dançarem em envergues formais, vão lá… Amanhã acordam com ressaca e eu com os olhos inchados. Sabem aquilo do “quando perdemos alguma coisa que não podemos substituir”? É isto. A confiança, a fé, a segurança… Quando deixa de existir, deixa de existir para sempre. Hoje vou ficar aqui, com a minha folha de papel reciclado A5 esborratada de azul e com o pedaço de mim que pedi de volta. O melhor pedaço de mim. Sabes que te amo, não sabes?

O homem que lhe conseguia não só despir as roupas, mas também a alma

Por umas horas, numa noite fria de Outono, ele desejou tudo.
Cosmopolitan, era o que ela bebia. Sentada ao balcão, no vestido justo e vermelho que tinha comprado há três semanas para aquela saída de amigas, qualquer homem naquele bar reparou nela. O cabelo castanho-escuro alisado há umas horas caía-lhe nas costas de maneira perfeita, a maquilhagem que lhe sobressaía os olhos castanhos revelava uma saída de mulheres sem necessidade de engatar. Tinha uns Louboutin pretos, altíssimos. Aquilo devia incomodar ao andar, pensou ele, mas ao olhar para o sorriso dela nem pensou mais nisso.
Naquela sexta-feira à noite, no melhor bar da avenida, ela era a mulher da vida dele. Aliás, era, provavelmente, a mulher da vida de todos os homens heterossexuais naquele bar. Transpirava confiança e serenidade, duas das características preferidas dele numa mulher. 
Ainda pensou em ir ao balcão e até meter conversa, quem sabe. Mas decidiu ficar sentado no sofá com o gelo a derreter no seu Jack Daniel's. Durante horas, naquele mesmo sítio, fantasiou com ela. Desejou ser ele o homem que esperava por ela ao fim de um dia de trabalho. O homem que a seduzia só com o olhar ou com o tirar da camisola, porque ela era louca pelo seu corpo. O homem que com um piscar de olhos a faria entrar na banheira com ele. O homem que sabia e ia respeitá-la em qualquer momento. O homem que lhe conseguia não só despir as roupas, mas também a alma. O homem a quem ela dava tudo de si. O único homem a quem ela dava tudo de si.
E o único homem que era capaz de lhe dar tudo o que ela sempre sonhou.
Mas, hoje, ele não era aquele homem.
Ele era o homem que ia voltar para casa, tomar um duche rápido e entrar na cama fria.
E voltar a sonhar com ela.

O mais bonito aos seus olhos

Ela, atrevida e irreverente. Ele, apaixonado e prudente. Não podiam ser mais diferentes e ela reparava nisso todos os dias. Ele era o rapaz mais carinhoso, altruísta e apaixonado que ela alguma vez conhecera e o mais bonito aos seus olhos. Era o tipo de rapaz que cuidava bem do que tinha e ela era sua. Não havia um dia em que ela não ouvisse ele um “amo-te” ou um simples “estás linda”. Isso enchia-lhe o coração sempre que o ouvia. Não havia um dia em que ele não a acordasse na cama com um beijo carinhoso de bom dia, muitas vezes acompanhado de pequeno-almoço na cama. Tinham uma intimidade invejável, desde que se conheceram. Que ele a fazia feliz era inegável, mas por vezes ela dava por si a querer mais dele. Mais ousadia, mais vontade, mais espírito aventureiro, mais liderança. Pequenas coisas que passavam ao lado dele mas que lhe faziam falta a ela. Havia noites em que ela dava por si com os olhos molhados de lágrimas e desiludida consigo mesma por querer mais de uma pessoa que fazia tudo por ela. O seu lado altruísta fazia com que ele quisesse fazer tudo por ela, se fosse preciso “tirar da própria boca” para lhe dar a ela. Mas, de facto, faltava-lhe qualquer coisa. Ela só queria que, por exemplo, ele planeasse o fim-de-semana algumas vezes e não deixasse tudo para sexta-feira à noite porque acabava sempre por ser ela a decidir irem ao cinema ou jantar fora ao mesmo restaurante, uma e outra vez. Mais uma semana que passou e mais uma semana em que ela decidiu o que iam fazer: naquele fim-de-semana de final de Verão, iam passar o fim-de-semana ao Douro, o rio com mais encanto para ela. Foi nesse fim-de-semana que tudo mudou. No sábado a noite, na segunda noite na invicta, depois de jantarem juntos no restaurante indiano preferido de ambos, foram passear à beira do rio, como é hábito, de mãos dadas. Ela nunca imaginara, mas a sua vida mudou ali. Todas as dúvidas acabaram e ela soube que ele era o homem da vida dela. Quando deu por si, ele olha-a nos olhos, diz “Eu amo-te. Amo-te desde a primeira vez que te vi. És a mulher mais bonita do mundo. Quero que sejas a mãe dos meus filhos e acordar ao teu lado para o resto da minha vida. Quero que sejas quem eu vejo, linda e deslumbrante, a vir ter comigo ao altar” e ajoelha-se.

(Não tão) indiferente


Ela, apaixonada, indefesa, insegura. Ele, charmoso, valente, (não tão) indiferente. Cruzam-se praticamente todos os dias. Ela olha-o cuidadosamente. Um olhar genuíno, dócil. Olha-o como nunca ninguém olhou para ele. Ele quer olhá-la como mais uma rapariga. Mas ele vê. Ele vê os olhos dela a seguirem-no discretamente. Ele vê o brilho nos olhos dela quando se cruzam. Ele vê as pupilas a dilatarem-se e as faces a ficarem rosadas. Ele vê. E quase que ouve o coração dela a palpitar cada vez mais depressa quando ele se aproxima. E, no fundo, o coração dele segue o dela. Porque todos pensam que ele é indiferente. Mas como explicar a constante vontade de voltar para onde ela está? As contra-respostas rápidas quando ela lhe faz uma pergunta tímida, como se o coração não deixasse esperar para responder? Como explicar ele se sentir tão bem ao pé dela? Ele sabe que lhe acontece o mesmo. Mas também sabe que nunca vai dar o primeiro passo. Não por falta de amor ou por falta de coragem. Talvez seja por não querer arriscar. A falta de coragem prevalece do outro lado. Ela nunca vai avançar, não lhe está no sangue. Essa falta de coragem junta-se ao medo da rejeição e faz com que ela nunca se vá aproximar. Estão condenados ao fracasso e ambos sabem disso. Mas o incurável lado romântico dela nunca a vai fazer desistir. 

Vou escolher lembrar-me que fui feliz

Hoje é a última vez que te falo sobre ti. Sobre nós. Sobre um nós que nunca existiu. Então aqui vai. A voz que faz o meu coração saltar já não é a tua. O sorriso que faz o meu coração derreter já não é o teu. Não que me sejas indiferente ou não queira o teu bem, não é isso. A verdade é que já não és tu. Já há muito tempo que não era suposto seres tu. As correntes desembaraçaram-se e eu libertei-me. Não me arrependo nem por um segundo de nenhum dos momentos que passei contigo, embora, na realidade, sem ti. Ou de nenhum dos sentimentos não mútuos. Fizeste-me crescer como mulher, embora involuntariamente da tua parte. Fizeste-me ver pela primeira vez que não há escolha! Assim que bates na parede, bateste, não há nada a fazer. Fizeste-me ver que há outros caminhos, muitas vezes, melhores. E, principalmente, fizeste-me aprender a ficar quieta quando tudo o que eu mais queria não dependia de mim. Deixo-te aqui um obrigada por tudo. Por cada sorriso, cada olhar, cada palavra, cada gesto. Porque, embora infeliz por não te ter, fizeste-me feliz todos os dias só por existires. Confesso que demorei algum tempo até te poder dizer adeus, mesmo já tendo avançado. Como romântica assumida, já li muito e acredito que cada pessoa tem na vida aquele amor platónico, aquele que nunca foi por distância, por amizade, por timing ou por outra razão qualquer. Eu acredito que és o meu. Acredito que vais ser sempre o meu. Não sei se algum dia vou olhar para ti como “apenas um rapaz”, ou “amigo de amigos” ou mesmo “amigo”. Sempre que te olhar nos olhos vou ver-me a mim e aos meus tempos de felicidade contigo, embora sempre sem ti. Vou respirar fundo. E vou sorrir. Vou escolher lembrar-me que fui feliz. Vou escolher lembrar-me das mil e uma razões que me deste para sorrir em vez das poucas para chorar. E, aqui, digo que a nossa história acabou. Posso não ter tido o poder de decisão em relação a ti no passado, mas hoje ele é todo meu. Considera isto um adeus. Um adeus a tudo o que nunca chegou a ser.

A intensidade que nos diverge é a mesma que nos une

És muito mais que um namorado. És um pai, quando ralhas comigo e dizes para ir correr, quando olhas para mim com um ar reprovador quando eu te digo que me apetece chocolate. És uma mãe, quando me abraças com força quando vês os meus olhos molhados ou quando não desistes de mim mesmo quando eu te imploro para o fazeres. És o irmão mais velho que eu sempre quis ter, o que goza comigo mas é o primeiro a estar lá para me proteger. Aquele que sabe sempre o que dizer na hora certa. És o meu melhor amigo, aquele para quem eu quero correr para os braços e contar as novidades, aquele que sabe coisas da minha vida que nenhuma outra pessoa sabe. És das muito poucas pessoas que eu acredito que nunca vai desistir de mim. És quem conhece todos os meus defeitos, e, mesmo assim, continua comigo. És tudo para mim. És absolutamente maravilhoso. És a melhor pessoa, o melhor irmão e o melhor filho que eu alguma vez conheci. Percebe que isto não é um caso de “ele é perfeito”. Não. É o caso de saber que não o és, ir conhecendo os teus defeitos e estar disposta a aceitá-los. Porque não os aceitar seria não te aceitar a ti. E eu aceito-te, com tudo o que tenho. Jamais questionaria o que temos. É tão real, tão certo que só a ideia de pôr isso em causa é absurda. A forma como nos aproximámos e, mais do que isso, a maneira como nosso destino se foi cruzando quando menos esperávamos... Era para ser. Era para acontecer. Era para existir um “nós”. Apesar de vacilarmos, de errarmos, de desiludirmos, de qualquer discussão acesa, no final, continuamos aqui. De corpo, coração e alma. A intensidade que nos diverge é a mesma que nos une. As nossas diferenças existem para nos completar. O que falta em ti há em mim. Quando um está prestes a desistir, o outro vai lá e recupera tudo novamente. Adoro quando nos chateamos por qualquer razão e eu te mando embora, e depois de ires, voltas porque sabes que já me arrependi e já te quero nos meus braços outra vez. E lá espreitas tu pela porta e sorris, e quando eu te peço desculpa tu aproximas-te, beijas-me a testa e abraças-me. Vamos ter momentos assim para sempre. Altos e baixos. É esse o preço de toda esta intensidade. É o preço de tanto amor. Um relacionamento é uma conquista diária. É amizade, confiança, carinho, parceria, respeito. Inclui dividir problemas e multiplicar alegrias. Inclui respeitar pontos de vista, estar ao lado um do outro em qualquer situação. É muito mais do que noites bem passadas. É muito mais do que beijos ou sexo. Isso vem por acréscimo. É preciso amizade. E isso, nós temos.