E se?


Não é fácil quando os factos não são o que parecem na realidade. Quando tudo o que julgamos saber é posto em causa e já não percebemos o que é que realmente sabemos. É que, mesmo já não sendo fácil, é suportável saber que o que realmente se passa não é bem aquilo que queríamos, mas quando tudo à nossa volta indica exactamente o contrário… É frustrante. Põe até uma pessoa louca. Se efectivamente estamos a ver imparcialmente, ou estamos a ser levados pelo nosso subconsciente, que se apodera dos nossos mais íntimos desejos. E, a partir daqui, a nossa cabeça é ocupada por constantes suposições: “E se?”. Provavelmente as duas palavras que, juntas, mais fazem com que nos enchamos de presunções, de hipóteses, de arrependimentos, que no fim, muitas vezes, levam à insanidade. Passamos a estar numa constante avaliação dos nossos comportamentos e dos dos outros, de pensar demasiadas vezes antes de tomar uma decisão e num constante medo de termos feito algo que não devêssemos. Nada disto nos leva a lado nenhum. Nada nos pode levar ao passado para alterar decisões, nada nos pode levar ao futuro para vermos se essas foram bem tomadas. Mas é suposto o ser humano não ser coerente a tempo inteiro, e é nesses momentos que somos dominados pelo nosso subconsciente, estando numa luta persistente contra nós próprios.
Por vezes, não há nada que eu mais queira que poder ouvir os pensamentos das pessoas. Para descobrir o seu lado mais íntimo, aquele que não mostram a toda a gente. Aquele que realmente faz apaixonar ou odiar. Aquele que muitos escondem por não terem ninguém de confiança para confessar. Aquele que muitos não contam por terem medo.
Por vezes, não há nada que eu mais queira que poder ouvir os pensamentos dele. Saber se é como se pensa ou se é como parece. Saber se ele tem qualquer reacção quando ouve o meu nome. Saber se dá pela minha falta quando eu não estou onde é suposto. Onde quer que vá, o que quer que eu oiça, o que quer que eu veja me faz lembrar dele. Queria mais que tudo saber se tudo isto é absurdo ou não. E se?

Bastava-te um olhar

Se me olhasses nos olhos com vontade de quereres ver, bastava-te um olhar. 
Bastava-te um olhar para me perceberes. Para ficares a saber o que eu sinto cada vez que te vejo. Os arrepios que sinto na coluna, as mãos que tremem, o coração que salta. Parece mentira, mas é mesmo verdade. Sinto tudo como se te conhecesse desde sempre e só agora me apercebesse das minhas reacções para contigo. Mas não. Na realidade, não te conheço. Nem nunca falei contigo directamente. Mas a tua voz... A tua voz é o meu paraíso. É como a mais bela sinfonia de Beethoven para os amantes de  música clássica. É como um aperto que tenho no coração, saber que consigo sentir isto sem realmente te conhecer. Parece mesmo mentira. Nunca me tinha acontecido, até agora. Sempre achei que isso do "à primeira vista" não existia. E acredito que continua a não existir. Mas acredito, sim, num segundo olhar. Um olhar diferente. Quantas foram as vezes que passaste por mim, te ouvi falar, rir, te sentaste na mesa à minha frente... E nunca tal coisa senti. Foi de um momento para o outro, do dia para a noite. Quando dei por mim, olhaste-me de relance e eu tremi. Fiquei insegura, senti-me sozinha. E, mesmo assim, é o teu olhar que eu mais procuro. Porque apesar da insegurança que eu sinto, sinto conforto cada vez que os nosso olhares se cruzam. Sei que nunca te passará pela cabeça aquilo que eu penso cada vez que isto acontece. Sei que para ti não passa de um olhar ao teu redor e que, por acaso, eu apareço no meio. Para mim, és o olhar que me faz aguentar a semana inteira longe do meu habitat. Confesso que me sinto um pouco ridícula por falar assim de uma pessoa que só sabe o meu nome, e nem isso eu tenho a certeza se te lembrarás. Ridícula por me sentir assim por uma pessoa que não conheço. Pois bem, não tenho a culpa, não te escolhi. És como uma varinha do Harry Potter, foi o teu olhar, o teu sorriso, a tua voz... que me escolheram. 
Com tudo isto, garanto-te. Garanto-te que se me olhasses nos olhos com vontade de quereres ver, bastava-te um olhar.