Tudo o que nos apaixona

Amante é tudo "aquilo que nos apaixona". É o que toma conta do nosso pensamento antes de adormecermos, e é também aquilo que, às vezes, nos impede de dormir. O nosso amante é aquilo que nos mantém distraídos em relação ao que acontece à nossa volta. É o que nos mostra o sentido e a motivação da vida. Às vezes encontramos o nosso amante na pessoa com quem partilhamos toda a vida, outras vezes em que não é nessa pessoa, mas que nos desperta as maiores e mais incríveis paixões e sensações. Também podemos encontrá-lo na ciência ou na literatura, no teatro ou no cinema, na música ou na política, no desporto ou no trabalho, na necessidade de transcender espiritualmente ou no prazer obsessivo do passatempo predilecto… Enfim, é "alguém" ou "algo" que nos faz aproveitar com vontade a vida e nos afasta do triste destino de "viver só porque sim".  E o que é "viver só porque sim"? É ter medo de viver. É cobiçar a forma como os outros vivem, é deixar-se dominar pela pressão, é perambular por consultórios médicos, e é tomar comprimidos coloridos, é afastar-se do que é gratificante, é observar decepcionado cada ruga que o espelho mostra, é aborrecer-se com o calor ou frio, com a humidade ou a chuva. "Viver só porque sim" é adiar a possibilidade de desfrutar o "hoje", fingindo contentar-se com a incerta e frágil ilusão de que talvez possamos realizar algo amanhã. Um amante é um protagonista da peça que é a nossa própria vida, seja qual for o acto ou a cena. Ao procurar algo que nos apaixona, estamos a viver cada segundo. O trágico não é morrer, afinal a morte tem boa memória e nunca se esqueceu de ninguém. O trágico é desistir de viver; por isso, sem mais delongas, procura um amante.